
![]() Perdendo Perninhas - grupo de amigas enfrenta os temores da quinta série Visite o Site
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Subemprego 10: Assistente de biblioteca
Eu empurrava um carrinho que, se fosse num restaurante, teria sobremesas. Por estarmos numa biblioteca, tinha livros a serem devolvidos. Era ler a etiqueta e encontrar o lugar exato. Primeiro por categoria: ficção x não-ficção. Depois por assunto, então por letra inicial do sobrenome do autor, e título. E ali ele ficava. - Ai, ai... - suspirava - Nada como a ordem! Gostava principalmente dos autores que publicavam todos seus livros por uma editora só. Assim eles podiam ser coerentes nas lombadas. Primeiro o logotipo da editora, depois o título escrito de baixo pra cima e por fim o nome do autor, também de baixo pra cima. Morria de dó dos autores que publicavam por várias editoras. Numa o nome saia de baixo pra cima, na outra de cima pra baixo. Ficava horrível na estante. Pensava nestes autores miseráveis, em casa, deprimidos, olhando para a incoerência das suas lombadas. Lamentável... Mas alguns conseguiam. Gore Vidal era um desses. Sempre de baixo pra cima. Suspirava muito nessa época. Nem me passava pela cabeça que eu também fosse escrever algum dia. Eu trabalhava.
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Subemprego 9: Escrivã da delegacia da mulher
O único requisito era teclar rápido e ser mulher. Ninguém disse nada sobre discrição, mas eu era. A vítima podia narrar o que fosse, eu não me abalava. Ia teclando. A história sempre começava bem: Daí, caía no choro. Eu digitava: "choro" e cruzava os braços. Quando a vítima voltava a falar, eu voltava. Vinham os detalhes. A história padrão era homem bêbado que chega em casa nervoso e bate sem motivo. "Mais choro". Até aí era sempre igual. Eu cruzava os braços, abria uma revista e esperava. Então vinha o motivo. Variavam entre: "ele acha que sou vagabunda", "ele acha que escondo dinheiro dele", "ele acha que vou fugir com as crianças". A delegada pressionava mais um pouco e então sim, eu vibrava a cada toque. Quarenta e nove facadas. Deixava o expediente deprimida. Como escritora, jamais seria capaz de imaginar algo assim.
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Subemprego 8: Relações públicas para Webster & Parker
Eu tinha que atender o telefone e dizer: A pessoa do outro lado dizia que estava interessada em comprar um cachorro. Nesse ponto eu dava uma risadinha e dizia: E já sabendo que a pessoa ia gritar: "Como não, se eu estou com o anúncio na minha frente!?", eu completava: A pessoa ficava muda, daí percebia que sua casa seria submetida a uma avaliação. Não bastava fazer um cheque gordo. Ela teria que provar que tinha pedigree para possuir um dos nossos cães. Eu gostava dessa parte. Gostava mais ainda de empinar o nariz ao entrar na casa, passar a ponta do dedo nas cristaleiras, para ver se estava empoeirada. Então voltava para a minha kitnet alugada da Barra Funda, me sentindo incrivelmente poderosa.
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PS
BLog de subempregada é assim. Escrevendo em pleno carnaval!
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Subemprego 7: Vendedora de cerveja no carnaval de Salvador
Há um mês eu vivia de acarajé, e ainda vivia! Eu vivia de acarajé porque esta era a única coisa que custava R$1,00. O cachorro quente era R$1,50, portanto fora do meu orçamento. A passagem de volta pra Campinas já estava comprada, mas mesmo assim, o fato de só ter R$20 no bolso me assustava. E se me roubassem aqueles R$20? E se eu nunca mais voltasse? E se eu passasse o resto da vida na Bahia, enchendo a cara de acarajé? Eu teria que aprender a fazer acarajé, pra sobreviver. Soube imediatamente o que fazer. Torrei os R$20 restante em cerveja. Eu venderia cerveja no carnaval! Considerando que há um mês eu comia acarajé, tomava sol na cabeça o dia inteiro e bebia cerveja, esta idéia de vender cerveja me pareceu coisa de gênio. Gênio! Peguei meu isoporzinho e lá fui eu. No meu primeiro grito de: "OLHA A CERRRRVEJA GELADINHA!" - levei um chute, depois outro e mais outro. Acho que foi o "r" de cerveja. Os baianos da máfia cervejeira notaram meu sotaque campineiro e me botaram pra correr. Fim do empreendimento.
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Subemprego 6: Assistente de lavanderia automática
Uma mulher entrou com um cesto de roupas íntimas. Cuecas, calcinhas e meias, tudo misturado. Calcinhas de mulher grande, calcinhas de criança, cueca de menino, cueca de marido. - Howdy! - disse a dona. Ela pediu troco para dez dólares, enfiou as moedas na máquina e disse: - Bye now! Ela voltaria em uma hora para pegar as roupas. Até lá eu ouviria o chacoalhar da máquina. Caso ninguém mais entrasse, pedindo troco, eu não teria mais o que fazer. No Brasil pessoas sambavam feito doidas, disso eu sabia. Eram 5 horas da tarde, o céu escuro. Nevava. Fora a máquina chacoalhando, nada se mexia.
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